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Um clarão sobre a fragilidade da vida

[“Um clarão sobre a fragilidade da vida” para exposição “Red light” de Carlos Mensil na Galeria Sputnik and Window]

O objecto é antropomórfico. Achamo-nos ligados a ele pela mesma intimidade visceral que aos órgãos do próprio corpo e as características do objecto tendem, mesmo que dissimuladas, à recuperação dessa substância. Não há volta a dar: vemos veias e artérias, sangue em movimento. O espectáculo da seiva vital em circulação. Sobre esta constatação imediata, difícil será estancar os ecos do noticiário de ontem: pandemia, infecção, morte.

Redline emerge durante a experiência desumana de um confinamento (pela ameaça de um vírus histórico) afigurando-se para Carlos Mensil, como para muitos artistas durante este difícil período da nossa história recente, um ardil subterfúgio para um reencontro com a experiência mais vital, urgente e necessária da criação artística. Uma razão de vida ou morte.
Uma das singularidades processuais do Carlos que sempre me impressionou, é o extremo cuidado e tempo dedicado à manutenção dos seus artefactos. Grande parte da sua atenção detém-se no trabalho inexorável do tempo sobre as coisas: na escuta dos mecanismos, na observação exaustiva dos materiais, nas suas dilatações, condensações, fugas ou desvios. Há, por isso, uma paciente vigilância sobre a iminência de uma falha ou interrupção, como uma disponibilidade infinita para reparar o corpo construído e adiar as crises. Esta atenção permite-lhe ter um profundíssimo conhecimento interior dos seus trabalhos sendo tanto mais eficiente quanto mais alojar em si a consciência da possibilidade da sua morte. No caso particular desta máquina-organismo intitulada Redline, esta interdependência leva-me a pensar que mais do que uma extensão do próprio corpo do Carlos é uma visão do seu interior. A dança contínua de um fluído incerto num organismo vulnerável, delicado na iminência de parar. Um clarão sobre a fragilidade da vida.

Redline é também uma ferida. Uma escara que vem de trás, dos tempos pueris, quase imemoriais. Foi com especial interesse que, em visita ao seu atelier, o Carlos me confessou a origem do seu espanto por engrenagens e cinética. Filho de mecânico de máquinas de costura, ocupou a desmesura do seu tempo infantil à volta de mecanismos. Uma ferida aberta que nunca mais cicatrizou.

 

Porto, 3 Outubro de 2020

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