biography
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A imobilidade das rãs, dos melros e outros

                         

[Texto para o catálogo da exposição ; (ponto e vírgula) que reuniu no Centro de Artes Visuais de Coimbra (2025) os trabalhos de Zulmiro de Carvalho e Sebastião Resende com a curadoria de Miguel Von Hafe Pérez]

Saí da exposição ; [Ponto e vírgula], que colocou Zulmiro de Carvalho e Sebastião Resende lado a lado, com a convicção de que para além de uma diferença formal – ou até geracional – evidente, existe neste dois autores uma única e mesma aspiração cuja natureza  encontra ressonâncias nas tradições filosóficas orientais: a precisão das ações; o domínio oficinal, libertador do espanto das ideias; a economia monástica do vocabulário formal (uma espécie de abstinência radical às superficialidades onde tudo pertence à  ordem do essencial e do necessário).  

A propósito, recordei-me de ter lido em tempos um pequeno e comovente texto de Morinaga Sôkô sobre a sua luta para se transformar num monge Zen. Numa situação dramática, este jovem estudante de artes japonês, mobilizado para a Segunda Grande Guerra, conta ter perdido ambos os pais dias antes da sua partida para o teatro bélico.  Após a rendição do Japão a 15 de Agosto de 1945, assistiu à perda das propriedades da família, a execuções sumárias de líderes militares, entre outras barbaridades. Depois de várias peripécias trágicas e do desmoronamento de referências e valores que sustentavam a sua vida, Sôkô conheceu Gotô Zuigan Roshi, mestre do templo de Daishuin, em Kyoto, que lhe abriu as portas para a sua conversão em monge. A lembrança deste relato biográfico, já um pouco rarefeito na minha memória, levou-me de volta ao sítio onde o tinha lido pela primeira vez:  na biblioteca pessoal de Alberto Carneiro, em depósito no centro de artes homónimo, em Santo Tirso. Um autor cujo pensamento e obra também se cruzam com as filosofias orientais – do Budismo ao Zen, do Tantrismo ao Yoga. A sua constelação de livros revela um mapa conceptual, estético e filosófico do universo interior e íntimo, deste escultor seminal da arte portuguesa: da psicologia profunda à fenomenologia, dos jogos infantis à perceção espacial das crianças, da educação à antropologia, das religiões à gestualidade do corpo. 

Foi na secção “oriental” que, com dificuldade, reencontrei o pequeno livro Zen: tradition & transition (1988) de Keneth Kraft, onde figura logo no primeiro capítulo a célebre estória de Morinaga Sôkô – My struggle to Become a Zen Monk.  Passo a citar, em tradução livre, uma breve passagem que ilustra os primeiros dias de Sôkô no templo de Daishuin, a conquista da confiança do mestre Gotô Zuigan Roshi e os seus primeiros ensinamentos:

“Vem comigo”, disse Gotô Zuigan Roshi. 

A primeira tarefa que me atribuiu foi varrer o jardim com uma vassoura de bambu. Se formos honestos, temos de admitir que as nossas motivações mais profundas são, muitas vezes, extremamente mesquinhas. Embora ainda o considerasse um velho ingénuo, por esperar que eu confiasse nele, de alguma forma eu queria ganhar a sua aprovação. Assim, peguei na vassoura e varri, fazendo uma montanha de folhas. Perguntei: “Roshi, onde devo colocar todo este lixo?”, esperando que ele visse o quão bom eu tinha sido. Ele reagiu de chofre e com raiva: “As folhas não são lixo!” Comecei por dizer: “Está bem, mas aqui…” Ele respondeu: “Não confias em mim, pois não? Vai ao barracão e traz todos os sacos de carvão vazios que lá encontrares.” Ao regressar, encontrei Roshi a remexer vigorosamente na pilha de folhas, para que todas as pedras ou cascalho caíssem ao fundo. Pegou então nos sacos e encheu-os até à última folha, compactando-os firmemente com os pés. “Agora vai e coloca isto de volta no barracão”, disse ele, “São lenha para aquecer o banho”. Quando carreguei os sacos de volta para o barracão, percebi que afinal as folhas não eram lixo, mas ainda estava convencido de que os pedaços que restavam eram. No entanto, quando regressei, vi Roshi agachado no chão, a escolher as pequenas pedras do que restava. Depois de as juntar cuidadosamente até à última pedrinha, disse: “Agora coloca isto debaixo do beiral. As gotas de chuva que pingam do telhado fizeram depressões no cascalho sob o beiral. Usa as pedrinhas para preencher esses buracos. (…) Compreendes agora? Em princípio, não há lixo, nem nos homens nem nas coisas.” 

Revisitar este relato de Sôkô fez-me restaurar o meu primeiro olhar sobre a materialidade das esculturas de Sebastião Resende, como se me forçasse a uma reparação ética da minha atenção, sobretudo nas obras “Sem Título” datadas entre 1990 e 1991. Existe, no processo aditivo desta série, uma suficiência “pobre”: começa com pequenos pedaços de cartão ou madeiras, por vezes reforçados com discretas estruturas de metal, posteriormente revestidos a fibra de vidro e finalizados com uma patine de areia, conchas esmagadas e pigmentos secos. Um processo de acumulação delicada onde tudo parece ter o seu tempo e aproveitamento, sem desperdício. 

E o que dizer de Horizonte (2014) de Zulmiro de Carvalho, um varão de aço inox polido de 1 metro de largura, colocado à altura do nosso olhar? Representará a consciência profunda de que não se pode compreender inteiramente uma coisa, só implicitamente poderemos abarcar a (sua) totalidade? O monte de folhas que Sôkô varreu, afinal, não será mais do que uma ínfima parte de uma realidade invisível.

Ainda na mesma prateleira de Alberto Carneiro, leio o prefácio de Manuel Zimbro, um dos principais divulgadores da filosofia Zen em Portugal, no livro No caminho aberto (1993), do mestre Zen Hôgen Yamahata, que ajudou a traduzir. Neste breve introito, Zimbro, durante muitos anos companheiro artístico de Lourdes Castro, descreve como “Vertiginosa imobilidade” uma linha orbital executada por um mestre Zen, a pincel com tinta-da-china sobre papel de arroz. Um ponto sem princípio nem fim, sem passado nem futuro. 

Para mim, Zimbro, nessa exata expressão, poderia estar a falar dos desenhos de Zulmiro (Sem título, grafite sobre papel [3 desenhos], 1980 ou Sem título, tinta-da-china sobre papel [30 desenhos], 1996): são como piões a girar a grande velocidade.  Parecem imóveis na sua vertigem de movimento. Até mesmo a abrupta agilidade caligráfica dos desenhos de Resende (Sem título, pintura e colagem sobre pano, 1978) ostenta a lentidão quase estática do velho mestre Zen. 

No seu delicadíssimo livro História secreta da aviação (1997), Zimbro acerta no alvo:

“as rãs, os melros e outros, imobilizam-se para escapar ao perigo”.  

Samuel Silva

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