[Texto produzido no âmbito do projecto de pintura “Uniformes” de Vitor Israel apresentado na Kubik Gallery no enquadramento da “Colectiva de Verão”, Porto, 2013. O texto foi revisto em 2026 para fazer parte de uma antologia de textos que irá ser publicado sobre o trabalho de Vitor Israel]
[Os cafés da minha aldeia, para além dos troféus dos campeonatos amadores de futebol de cinco, exibiam, por cima da máquina de café, uma coleção desbotada e amarelada de uniformes desportivos, por vezes acompanhados de chapéus. Ora pendurados em cabides, ora emoldurados em dourado e protegidos por vidro, quase sempre ostentavam autógrafos de quem os vestira.]
No atelier, Vitor Israel contou-me que um dos pretextos para os seus Uniformes de tela nasce do fascínio pelo trabalho gráfico de Varvara Stepanova.
Confesso que desconhecia o trabalho desta artista russa nascida na Lituânia (1894), o que me levou a uma pesquisa duplamente entusiasmada. Varvara integrou ativamente a cena construtivista — com Rodchenko (seu companheiro), Popova e Aleksei Gan — que então despontava no contexto da reconstrução europeia após o colapso consequente da I Guerra Mundial.
Tanto Varvara Stepanova como os restantes artistas militantes do programa ideológico construtivista partilhavam um propósito tão claro quanto revolucionário: subtrair o gesto artístico da expressão individual e do subjectivismo para o submeter à materialidade da linha de montagem fabril e ao serviço da construção por uma sociedade melhor. Este vínculo à indústria levou-os, de forma decisiva, a reorientar as suas práticas para meios mais diretamente ligados à técnica, como o design gráfico, a fotografia, o têxtil e a propaganda política.
Varvara defende, inclusive, num texto associado à exposição de arte abstrata 5×5=25 (Moscovo, 1921), a composição como a única abordagem contemplativa possível ao artista; ao mesmo tempo, adverte que tanto a técnica como a indústria confrontaram a arte com o problema da construção enquanto ideia de ação, e não de reflexão. Este enunciado radical, sem precedentes, pressupunha a dissolução absoluta do objeto artístico enquanto entidade única e aurática.
O mais curioso é que Vitor Israel não “veste” esta narrativa, pelo contrário, inverte-a ironicamente, ao colocar os uniformes (ou a sua representação pictórica) na parede da galeria, restituindo-lhes a dimensão contemplativa que Stepanova e os seus pares procuraram extinguir.
Deste modo, Israel coloca-nos perante um aparente imbroglio: posicionarmo-nos como consumidores perante uma espécie de catálogo de produtos excedentários de outlet, mas com Piet, Wassily e Kasimir na cabeça.
Samuel J.M. Silva
10 Julho de 2013
(revisto pelo autor a 16 Abril de 2026)